Sirene
Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afeto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhum, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sênior
de vários prêmios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.
Inês Lourenço
Do livro A disfunção lírica
Escrito por valério oliveira às 09h32
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Da boca pra fora
bateu o olho
olho da cara
cara-de-pau
pau de fogo
fogo no rabo
rabo-de-saia
baixou o pau
pau-de-arara
bateu o olho
olho d'água
água-de-cheiro
cheiro-verde
verde amarelo
bateu o olho
olho do dono
dono do mundo
mundo cão
cão de guarda
guarda-chuva
chuva de pedra
pedra sabão
sabão aleijadinho
bateu o olho
olho-de-boi
boi de piranha
testa-de-ferro
sangue-de-barata
cabeça de santa
canela de ema
bicho de pé
pé de cabra
cabra da peste
freio de mão
mão-de-vaca
dente-de-leite
unha-de-fome
batata da perna
perna-de-pau
boca do estômago
pé no saco
saco de pancada
pancada de punk
caiu
caiu de boca
Nicolas Behr
Do livro Laranja seleta
Escrito por valério oliveira às 14h48
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Reconhece-se o poeta ou, pelo menos, cada leitor reconhece o seu poeta, pelo simples fato de que ele transforma o leitor em um inspirado. A inspiração é, positivamente falando, uma atribuição gratuita feita pelo leitor a seu poeta: o leitor nos oferece os méritos transcendentes das forças e das graças que se desenvolvem nele. Ele procura e encontra em nós a causa admirável de sua admiração.
Paul Valéry
Do ensaio Poesia e pensamento abstrato
Escrito por valério oliveira às 10h00
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Eu sempre levo a sério tudo o que eu faço. Mas procuro não me levar muito a sério.
José Mindlin
Escrito por valério oliveira às 08h59
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O gato
O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... Hesita... Avança...
Fita-me.
Fitamo-nos.
Olhos nos olhos...
Quase com terror!
Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
que fossem feitas cada uma por um deus diferente.
Mário Quintana
Do livro Preparativos de viagem
Escrito por valério oliveira às 10h56
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Fila
Nada me tira da cabeça que a longa, dramática e exaustiva evolução de nossa espécie teve como única finalidade a não menos longa, dramática e exaustiva fila no guichê da Previdência Social.
Escrito por valério oliveira às 10h43
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Acabo de publicar no jornal Rascunho, de Curitiba, a última página da microantologia Axis Mundi, dedicada a sete poetas portugueses: Adília Lopes, Gonçalo M. Tavares, Inês Lourenço, José Luís Peixoto, José Miguel Silva, Luís Quintais e Manuel de Freitas. A edição online está disponível aqui.
Escrito por valério oliveira às 10h39
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Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha?
De onde tira tantas folhas
a primavera da França?
Se termina o amarelo
com que faremos o pão?
Há algo mais triste no mundo
do que um trem imóvel na chuva?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
Quantas perguntas tem um gato?
Pablo Neruda
Do Livro das perguntas
Escrito por valério oliveira às 14h51
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Chinelada lírica
A poesia está em tudo, tanto nos amores quanto nos chinelos.
Bandeira
Escrito por valério oliveira às 07h58
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Gordura trans
Fala comigo, por favor.
Não fica brava, fala comigo.
Esse silêncio está lipoaspirando meu cérebro.
Isso dói, isso dói muito.
Fala comigo.
Desliga a tevê e fala comigo.
Sobre o amor, sobre a vida,
sobre salvação das baleias,
oh pobres baleias.
Pobre de mim, tão gordo, tão solitário.
Tão extinto quanto a mais extinta das cachalotes.
Todas morreram de infarto do miocárdio.
Fala comigo, por favor.
Ah, não faz essa cara de arteriosclerose.
Fala comigo e eu prometo,
eu juro que divido com você
a última fatia do bolo-pudim de panetone.
Escrito por valério oliveira às 06h38
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Poesia
É nada menos do que uma desesperada manobra ontológica e metafísica.
John Crowe Ransom
É o real absoluto.
Novalis
É a força que atua de maneira divina e inapreensível para além da consciência.
Schiller
Escrito por valério oliveira às 07h11
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O pastor pianista
Soltaram os pianos na planície deserta
Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
Eu sou o pastor pianista,
Vejo ao longe com alegria meus pianos
Recortarem os vultos monumentais
Contra a lua.
Acompanhado pelas rosas migradoras
Apascento os pianos que gritam
E transmitem o antigo clamor do homem
Que reclamando a contemplação
Sonha e provoca a harmonia,
Trabalha mesmo à força,
E pelo vento nas folhagens,
Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
Pelo amor e seus contrastes,
Comunica-se com os deuses.
Murilo Mendes
Do livro As metamorfoses
Escrito por valério oliveira às 08h53
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Tarja preta
era puro ar de ventilador
soprava contra as minhas narinas
um vento retorcido, removido
um furacão assolando o meu quarto
chegava de remessa, embalado
com um agudo cheiro de plástico
era um vento plastificado
embrulhado
sofisticado
— coisa vendida em shopping center
que fazer?
se o calor cozinhava a minha pele
as hélices não davam trégua
semanas depois percebi o meu lento suicídio
narinas interditadas
olhos áridos
o corpo inteiro em decomposição
Majela Colares
Do livro As cores do tempo
Escrito por valério oliveira às 08h25
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De dez pessoas que falam de nós, nove falam mal, e a única que fala bem o faz desajeitadamente.
Antoine Rivaroli
Celebridade: a vantagem de sermos conhecidos por aqueles que não nos conhecem.
Chamfort [ Máximas e pensamentos ]
Escrito por valério oliveira às 10h19
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Artifício
as flores artificiais,
na mesa
o filtro sem água,
na pia
a geladeira sem carne,
na sala
nós dois na cama:
artifícios filtrados em carnes conjugais
Linaldo Guedes
Do livro Intervalo lírico
Escrito por valério oliveira às 15h06
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