Sirene
Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afeto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhum, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sênior
de vários prêmios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.
Inês Lourenço
Do livro A disfunção lírica
Escrito por valério oliveira às 09h32
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