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curto-circuito camicase


Marcelo Coelho, na Folha de S. Paulo

 

Mais presidentes? Um poeta, Valério Oliveira, acaba de lançar um livro originalíssimo e inquietante pela editora Hedra. Chama-se Todos os presidentes, e o título de cada poema faz menção a um presidente brasileiro. Há o Estúdio Getúlio de Dublagem, por exemplo, a Padaria João Goulart, ou a Lotérica Fernando Henrique. Não se esperem sátiras políticas de conteúdo previsível. São poemas sobre o cotidiano, escritos com grande controle do humor e da confidência. Enigmáticos, austeros, sem comendas nem condecorações, os versos de Valério Oliveira merecem lugar de honra em nossa república das letras.



Escrito por valério oliveira às 17h17
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O novo livro, pela Hedra

 

 



Escrito por valério oliveira às 13h45
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Sirene

 

 

Bom é ter poucos amigos

poetas, para não ter de

trair a lisura do afeto

ou do texto. Mesmo esses poucos

chegam a nenhum, se não

conseguimos elogiar epifanias

recessas, queixas piedosas ou

banalidades inócuas. Um amável

neófito muito badalado, ou um sênior

de vários prêmios

literários, esperam deliciar-nos

com o verbo no cada vez mais

exíguo palco do poema

impresso. Assim ficamos sós

diante da própria e feroz espera

da negada surpresa. Como quem

adormece na ambulância

apesar da sirene.

 

 

Inês Lourenço

Do livro A disfunção lírica

 



Escrito por valério oliveira às 09h32
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Da boca pra fora

 

 

bateu o olho

olho da cara

cara-de-pau

pau de fogo

fogo no rabo

rabo-de-saia

baixou o pau

pau-de-arara

bateu o olho

olho d'água

água-de-cheiro

cheiro-verde

verde amarelo

bateu o olho

olho do dono

dono do mundo

mundo cão

cão de guarda

guarda-chuva

chuva de pedra

pedra sabão

sabão aleijadinho

bateu o olho

olho-de-boi

boi de piranha

testa-de-ferro

sangue-de-barata

cabeça de santa

canela de ema

bicho de pé

pé de cabra

cabra da peste

freio de mão

mão-de-vaca

dente-de-leite

unha-de-fome

batata da perna

perna-de-pau

boca do estômago

pé no saco

saco de pancada

pancada de punk

 

caiu

 

caiu de boca

 

 

Nicolas Behr

Do livro Laranja seleta

 



Escrito por valério oliveira às 14h48
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Reconhece-se o poeta ou, pelo menos, cada leitor reconhece o seu poeta, pelo simples fato de que ele transforma o leitor em um inspirado. A inspiração é, positivamente falando, uma atribuição gratuita feita pelo leitor a seu poeta: o leitor nos oferece os méritos transcendentes das forças e das graças que se desenvolvem nele. Ele procura e encontra em nós a causa admirável de sua admiração.

Paul Valéry

Do ensaio Poesia e pensamento abstrato



Escrito por valério oliveira às 10h00
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Eu sempre levo a sério tudo o que eu faço. Mas procuro não me levar muito a sério.

José Mindlin

 



Escrito por valério oliveira às 08h59
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O gato

 

O gato chega à porta do quarto onde escrevo.

Entrepara... Hesita... Avança...

 

Fita-me.

Fitamo-nos.

 

Olhos nos olhos...

Quase com terror!

 

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias

que fossem feitas cada uma por um deus diferente.

 

Mário Quintana

Do livro Preparativos de viagem

 



Escrito por valério oliveira às 10h56
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Fila

Nada me tira da cabeça que a longa, dramática e exaustiva evolução de nossa espécie teve como única finalidade a não menos longa, dramática e exaustiva fila no guichê da Previdência Social.

 



Escrito por valério oliveira às 10h43
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Acabo de publicar no jornal Rascunho, de Curitiba, a última página da microantologia Axis Mundi, dedicada a sete poetas portugueses: Adília Lopes, Gonçalo M. Tavares, Inês Lourenço, José Luís Peixoto, José Miguel Silva, Luís Quintais e Manuel de Freitas. A edição online está disponível aqui.



Escrito por valério oliveira às 10h39
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Onde deixou a lua cheia

seu noturno saco de farinha?

 

De onde tira tantas folhas

a primavera da França?

 

Se termina o amarelo

com que faremos o pão?

 

Há algo mais triste no mundo

do que um trem imóvel na chuva?

 

Por que se suicidam as folhas

quando se sentem amarelas?

 

Quantas perguntas tem um gato?

 

Pablo Neruda

Do Livro das perguntas

 



Escrito por valério oliveira às 14h51
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Chinelada lírica

 

A poesia está em tudo, tanto nos amores quanto nos chinelos.

 

Bandeira

 



Escrito por valério oliveira às 07h58
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Gordura trans

 

Fala comigo, por favor.

Não fica brava, fala comigo.

Esse silêncio está lipoaspirando meu cérebro.

Isso dói, isso dói muito.

Fala comigo.

Desliga a tevê e fala comigo.

Sobre o amor, sobre a vida,

sobre salvação das baleias,

oh pobres baleias.

Pobre de mim, tão gordo, tão solitário.

Tão extinto quanto a mais extinta das cachalotes.

Todas morreram de infarto do miocárdio.

Fala comigo, por favor.

Ah, não faz essa cara de arteriosclerose.

Fala comigo e eu prometo,

eu juro que divido com você

a última fatia do bolo-pudim de panetone.



Escrito por valério oliveira às 06h38
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Poesia

 

É nada menos do que uma desesperada manobra ontológica e metafísica.

John Crowe Ransom

 

É o real absoluto.

Novalis

 

É a força que atua de maneira divina e inapreensível para além da consciência.

Schiller



Escrito por valério oliveira às 07h11
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O pastor pianista

 

Soltaram os pianos na planície deserta

Onde as sombras dos pássaros vêm beber.

Eu sou o pastor pianista,

Vejo ao longe com alegria meus pianos

Recortarem os vultos monumentais

Contra a lua.

 

Acompanhado pelas rosas migradoras

Apascento os pianos que gritam

E transmitem o antigo clamor do homem

 

Que reclamando a contemplação

Sonha e provoca a harmonia,

Trabalha mesmo à força,

E pelo vento nas folhagens,

Pelos planetas, pelo andar das mulheres,

Pelo amor e seus contrastes,

Comunica-se com os deuses.


Murilo Mendes

Do livro As metamorfoses

 



Escrito por valério oliveira às 08h53
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Tarja preta


era puro ar de ventilador

 

soprava contra as minhas narinas

um vento retorcido, removido

um furacão assolando o meu quarto

 

chegava de remessa, embalado

             com um agudo cheiro de plástico

 

era um vento plastificado

 

             embrulhado

             sofisticado

 

coisa vendida em shopping center

 

que fazer?

se o calor cozinhava a minha pele

 

as hélices não davam trégua

 

semanas depois percebi o meu lento suicídio

             narinas interditadas

             olhos áridos

             o corpo inteiro em decomposição


Majela Colares

Do livro As cores do tempo



Escrito por valério oliveira às 08h25
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